Os Sermões – Padre Antônio Vieira

Boa tarde pessoal! Hoje abordaremos a nossa 5º obra do projeto “Leitura Obrigatórias Unicamp 2021”. O livro da vez é : Os Sermões – Padre Antônio Vieira. O sermão selecionado pela Comvest é o Sermão de Quarta-feira de Cinza! A pesquisa será norteada por diversos sites abordando o tema em questão. Serão disponibilizados também o link dos sites pesquisados, o livro para download em pdf e o link para compra na Amazon.

Os Sermões, de Padre Antônio Vieira, são textos em prosa que representam o período barroco na literatura brasileira, sendo que em sua maioria, eles se apresentam por meio de assuntos polêmicos, ao tecer críticas pontuais a diversos aspectos que o Padre Antônio Vieira acreditava estarem errados naquela época que precede o descobrimento do Brasil.

O sermão, no século XVII, era um dos principais meios de comunicação, circulação de informações e de doutrinamento das populações cristãs tanto na Europa como no Novo Mundo, e tornou-se uma importante forma de expressão nas mãos do padre Vieira. Sua obra está organizada em 12 volumes, sendo que dois reúnem prédicas dedicadas a Nossa Senhora do Rosário, entre os quais estão os famosos sermões aos homens pretos, e outro é dedicado exclusivamente a São Francisco Xavier. Afora a organização por homenagem a figuras santas nesses três volumes, os outros nove não parecem seguir nenhuma ordenação, talvez obedecendo ao ritmo de preparação e término dos originais do próprio autor. Além desses, compõem a coleção um volume de sermões de ação de Graças, impresso em 1692, que era considerado por Vieira como um livro separado e diverso dos Sermões, mas incluído entre os volumes da obra no século XVIII, e mais quatro volumes organizados postumamente, entre 1710 e 1748, contendo sermões, cartas, poemas e discursos vários, com dois deles, adicionados à conta de 15 volumes de sermões posteriormente.

Famoso por seus sermões escreveu mais de 200 e possui em seu estilo a retórica e o encadeamento de ideias. Os sermões podem ser divididos em três partes:

Exórdio: a apresentação, introdução do assunto;
Desenvolvimento ou argumento: defesa de uma ideia com base na argumentação;
Peroração: parte final, conclusão.

Entre seus sermões, alguns dos mais famosos são: Sermão do Bom Ladrão, Sermão de Santo Antônio  aos Peixes, Sermão da Sexagésima, Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, Os Sermões de quarta-feira de cinzas, entre outros.

RESUMO

Em três sermões de Quarta-feira de Cinza, data que marca o início do período quaresmal no calendário católico, o jesuíta português Antonio Vieira (1608-1697) tratou da morte como cerne da consciência cristã, como objeto de temor que orienta as práticas da existência e ainda como forma última do desejo. Em seu conjunto, os argumentos relativos à eternidade, à hora da morte e às misérias da vida e dos vivos compõem uma dialética afetiva de temor e consolação que está na base de uma surpreendente arte de morrer.

A quarta-feira de cinza marca o início da quaresma. Padre Antônio Vieira vivia em Roma no ano de 1670 e foi designado a proferir uma missa para celebrar a data. O tema era justamente a arte de morrer como bem sinaliza o versículo bíblico que norteia a missa: Gênese 3,19 – És pó e ao pó retornarás. Paro padre e a religião a que representava, viver seria somente um meio para o um fim mais significativo: morrer. Desta forma, morrer significa um rito de passagem para um mundo que será a imagem da conduta, em vida, do cidadão. Para melhor compreender, basta imaginar que uma vida fora dos preceitos católicos levaria o ser para longe do descanso eterno sonhado. Ao passo que uma vida dentro dos valores comungados pela Igreja daria ao indivíduo a garantia de um descanso eterno. Assim, os três sermões, pregados em anos consecutivos, denotam um ensinamento religioso a fim de instruir como conduzir uma vida para que seu fim seja compensador.

CONTEXTO HISTÓRICO

“Em 1662, com o fim do amistoso período de regência da rainha dona Luísa de Gusmão, viúva de Dom João IV e, a subida ao poder, contra a sua vontade, de seu filho Afonso VI, o padre Antônio Vieira, protegido da regente como antes o fora do rei falecido, cai em desgraça. Os anos que vão de 1663 a 1665, passa-os no desterro em Coimbra, respondendo ao processo que contra ele movia o Santo Ofício, fundamentado basicamente em acusações de heresia e judaísmo. É preso em 1665.”. O trecho anterior é de autoria do professor Alcir Pécora e introduz o leitor da obra no contexto da vida de Vieira. O período histórico é denominado Barroco e traduz as mudanças sócio-políticas do século XVII – época em que os valores comungados pela idade médio e seu teocentrismo tentam suplantar o avanço do homem renascentista, pagão e científico. Muitas foram as perseguições e igualmente muitos foram os hereges conduzidos a fogueira da Santa Inquisição. O Locus Horrendus fazia parte da temática das obras artísticas e a produção passou a ser sinônimo de propaganda da Igreja Católica.Vieira foi transferido em dezembro de 1665 para o mosteiro de Pedroso, no Porto. Em 1668, o padre é transferido novamente para o noviciado da Companhia de Jesus, em Lisboa. Alcançou o perdão em 12 de junho de 1668 e estava, portanto, livre. O resultado desta indisposição com a mesa inquisitória foi a escrita do Sermão da Sexagésima, que possui como temática a arte de pregar bem. Isso porque os acusadores eram da ordem dos dominicanos e o padre, da ordem dos jesuítas. Este escrevia de forma conceptista – menos rebuscada e, portanto, mais inteligível; aqueles, eram hiperbólicos e, por isso, obscuros. Padre Viera morre em 18 de julho de 1697.

A QUARESMA

Durante este período, as regras da Igreja impediam as representações cênicas e as óperas eram substituídas pelo oratório. Este evento tomava como tema um texto da Escritura Sagrada, que era ampliado e recitado por um narrador. Isso porque a quarta-feira de cinza inicia um processo de reflexão que deve durar por toda a quaresma. O crente deve refletir sobre a efemeridade da vida em face da eternidade. Trata-se do dia da delação de Judas aos romanos e, segundo os antigos judeus, sentar-se nas cinzas era uma prática que proporcionava a reflexão sobre os caminhos que a própria vida deveria levar. Além disso, a mitologia grega vê a ideia de cinza como renascimento. A Fênix encarna esta ideia: renasce das cinzas para ser melhor em vida.

ANÁLISE DOS SERMÕES

Todos os três sermões possuem o mesmo tema: a arte de morrer bem. Algumas palavras em Latim devem ser explicadas para que a leitura seja mais esclarecida, como Memento (Lembrar); Vanitas (Vaidade); Pulvis es, et in pulverem reverteris (Tu és pó e ao pó retornará); tempus fugit (efemeridade).

O PRIMEIRO SERMÃO: Pregado em Roma na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses (1672)

Focaliza o que se expõe em Gênese 3, 19: em vida somos pó e ao pó retornaremos. Isso quer dizer que há um caráter distinto entre homem e Deus. Este nunca foi ou será algo. A palavra Deus só se posiciona no tempo presente: Deus é. O homem, no entanto possui caráter transitório: foi, é e será. Essa marcação temporal indica a necessidade de preocupação com o que se fazer da existência para se ter uma morte de sucesso, capaz de transcender a alma e fixa-la próximo a Deus, no paraíso. Assim, a vida humana se torna circular porque o início e o fim são idênticos – essa seria a única forma de se aproximar do universo divino que, em concepção católica, nunca varia e, por isso, é belo e perfeito em sua constância. Pode-se confiar em um universo em que os valores são perenes, reais portanto. Em relação aos homens, quando comparados entre si, são diversos somente em sua > vanistas. Isto é, em sua vaidade. Vieira propõe, então, uma diminuição da vaidade para que a vida pudesse ser conduzida ao sucesso, sinônimo aqui de humildade. O homem orgulhoso, portanto, vaidoso, materialista, afasta-se dos postulados que o transcenderia.  O Padre propõe, então, a quaresma como um memento  – espaço de reflexão para lembrar a verdadeira essência humana: pó. Assim, de nada adiantaria o escrúpulo de vaidade uma vez que o cidadão retornará ao pó e nada levará desta vida. Nada do que possuir poderá alterar a natureza de sua essência nem agradar a Deus. Assim, este primeiro sermão trata de criar um modelo de comportamento baseado na reflexão entre passado e futuro. Ele cria uma espécie de limite das coisas humanas. O memento aos mortos ressalta os efeitos definitivos, imortais, que decorrem das breves ações da existência (tempus fugit). Assim, viver deve ser uma preparação para morte, condição de eternidade para o ser humano. Nada, portanto, do que se fez pode ser alterado na condição de defunto. Daí a importância de se pensar (memento) na vaidade de comportamento (vanitas) diante do tempo que passa cada vez mais rápido (tempus fugit).A síntese deste primeiro sermão pode, então ser definida mais ou menos assim: o homem deve ter medo não de perder a vida, mas de obter uma eternidade que não pudesse ser prazerosa. É condição de existência eterna, uma vida breve, mas de excelência. Assim, o medo maior é ser conduzido a uma imortalidade que fosse sinônimo de condenação dos atos que o ser teve em vida.Desta forma, a Igreja tende a ser e elemento que instrui o homem a fazer escolhas mais ponderadas, mais sensatas a fim de se manter a felicidade no pós-morte. Ela alerta e instrui porque o entendimento exerce o papel predominante na escolha em como se quer viver. Isso quer dizer que não é no ato da morte que se opta em ser bom ou mal (como achou Brás Cubas, em seu “Delírio de Morte”), mas nas escolhas feitas durante a vida. Padre Vieira cria uma espécie de Existencialismo dentro da doutrina cristão: o homem é responsável por suas escolhas e são elas que definem sua essência.

O SEGUNDO SERMÃO: Pregado em Roma na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses (1673)

Vieira cria uma variação do tema do sermão do anterior. Neste, o pó de hoje pode ser o remédio para o futuro. Isso porque dado o fato de o homem não poder fugir da morte, o melhor é aceita-la. Isto é, morrer em vida é melhor que morrer sem aceita-la. Isso porque o apego à vida retoma a ideia de vanitas e, por conseguinte, compromete a eternidade. Como não se sabe o dia de morrer; como se percebe, ao aceita-la, que a morte pode chegar a qualquer momento, ela pode ser o remédio para curar o mal de morrer indignado. Aceitar o desencarne seria refletir sobre sua conduta; morrer em vida seria abrir mão de todo o comportamento que pudesse barrar a felicidade de uma vida eterna, pautada numa vida encarnada sem erros. Refletir sobre os valores transcendentais quando se está doente, não tem valor (vide a biografia de Brás Cubas). Mas refletir sobre o que eleva a existência quando não há problema de enfermidade é bom e justo, dentro da doutrina cristã. Assim, haveria uma disposição racionalmente obtida em ser beato, justo e bom.

O TERCEIRO SERMÃO: Para ser pregado na capela real

Vieira inverte, neste sermão, o polo dos afetos. Enquanto a humanidade ama a vida, ele propõe que se deve amar a morte. Este seria um pré-requisito para se obter uma passagem ao transcendente sem percalços. O argumento utilizado é que a morte, se bem adquirida, pode afastar o homem do ócio, pode descansar o homem de seus trabalhos e misérias e aliviar os perigos da vida. Desta forma a morte seria a porta para a liberdade, para o descanso eterno. Pautando-se na ideia de que os exaltados serão humilhados e os humilhados serão exaltados, Vieira disserta que a vida ao lado de Deus não será para os afortunados. Logo, a abnegação é pré-requisito para a salvação. Para ele, nenhuma vida está segura das misérias e doenças. Para ele, os felizes daqui serão os tristes de lá. A morte seria, então, uma espécie de médico universal por acabar com o sofrimento das pessoas que estão em estão de miséria e, além disso, ela proporcionará a inversão de tal sofrimento para o gozo da alegria em Deus. Daí o uso do conceito de militia (Guerra). Para ele, o homem deve estar em constante guerra com seus apetites a fim de se curar dos males existentes somente neste mundo. O exemplo utilizado é Jó – perdeu tudo o que tinha, seus filhos e ainda teve uma forte doença de pele. No final de todo este processo doloroso ele se vira para Deus e diz: “Senhor, o que mais quereis de mim?”. Essa resignação, essa humildade é a tradução do que Vieira espera de seu ouvinte na missa: a introjeção da humildade, o combate à vaidade e a cura pela fé. Neste terceiro sermão, não prevalece a ideia de que a morte seria um novo nascimento, mas sim que ela representa o fim dos males na vida. Outro argumento lançado pelo autor é a ideia de “indiferença”. Ela afirma que ela é necessária para que os homens não sejam vítimas dos prazeres da vida e de seus próprios apetites. A “indiferença”, então, seria o passo necessário para a impecabilidade, a santificação do sujeito. Assim, diante dessa possibilidade, a morte é vista como a possibilidade de livrar o homem dos males a que ele está sujeito.

Sobre o autor

Antônio Vieira é o maior representante da prosa barroca no Brasil e o maior orador sacro do Brasil-Colônia. Nascido em Portugal, veio para o Brasil ainda criança e estudou no Colégio dos Jesuítas, em Salvador.

Portanto, o texto de Vieira, datado do século XVII, traz para nós uma inquietante contemporaneidade, pois seus temas principais são a ganância humana e a corrupção da sociedade, assuntos mais do que presentes em nosso cotidiano. Por meio de sua linguagem finamente elaborada, Vieira nos faz refletir sobre os desafios da sociedade de seu tempo, nos ajudando também a pensar sobre a nossa realidade.

Nesses sermões, pode-se encontrar muitas vezes críticas certeiras ao despotismo dos colonos portugueses, a outros pregadores que não exerciam de forma correta a sua função de catequização, a influência negativa do Protestantismo que acabava de chegar ao Brasil Colonial, aos novos-cristãos – que em sua maioria eram judeus que se converteram ao catolicismo e vieram se instalar aqui em terras tupiniquins – entre outras coisas.

Até mesmo a polêmica Inquisição não escapou das críticas dos sermões de Padre Antônio Vieira, que se dizia totalmente contra essa barbárie e afirmava que essa não era a melhor forma de se evangelizar as pessoas, ou seja, não concordava que o medo fosse uma boa maneira de fazer com que os povos aceitassem o catolicismo.

Além disso, Vieira também era um defensor dos povos indígenas, pois condenava os horrores vivenciados por eles nas mãos dos colonos portugueses que chegaram ao Brasil, assim, defendia a catequização dos povos indígenas bem como a integração deles com a sociedade.

Os sermões de Padre Antônio Vieira é o que há de melhor na produção barroca brasileira, em relação à literatura, é claro, sendo que esse autor é o maior representante da prosa barrosa no Brasil, além de ser considerado também o maior orador/pregador sacro do período do Brasil Colonial.

Antônio Vieira nasceu em Portugal, em 1608, mas veio ao Brasil logo quando criança, país onde cresceu e estudou no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, para iniciar sua carreira como padre no catolicismo.

O autor ainda foi responsável por escrever cerca de 500 cartas, com todos os tipos de assuntos, mas, em sua maioria, com críticas e manifestos acerca dos mais variados assuntos. Além disso, também ousou ao fazer algumas profecias, mas nenhuma delas ganhou muito destaque, é mais conhecido mesmo pelos seus Sermões.

Fontes e links

1- http://literaturaprofessorgustavoborges.blogspot.com/2017/08/sermoes-da-quarta-feira-de-cinza-padre.html
2 – https://www.livrariadavila.com.br/sermoes-de-quarta-feira-de-cinza-486623/p#sinopse
3 – http://www.revistas.usp.br/ls/article/view/134549
4 – https://www.institutoclaro.org.br/educacao/para-ensinar/planos-de-aula/sermoes-de-quarta-feira-de-cinzas-de-padre-antonio-vieira/
5 – http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/sermao-de-santo-antonio-aos-peixes.html
6 – https://canaldoensino.com.br/blog/os-sermoes-de-padre-antonio-vieira
7 – https://www.lendo.org/sermoes-padre-antonio-vieira/
8 – https://www.infoescola.com/literatura/os-sermoes/
https://www.snpcultura.org/pedras_angulares_sermao_4a_feira_cinzas.html

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